15/08/2017
E se um clube tivesse tido a ousadia de juntar
na mesma equipa jogadores chamados Rudigullithi, Martin Luther King Junior, Jim
Morrison Varela e Creedence Clearwater Couto? E se Freddy Adu tivesse assinado
um contrato com um clube polaco chamado Sandecja Nowy Sacz?
É verdade, são demasiados “ses”. E o mais
descabido de todos, como é evidente, é aquele que diz respeito a Freddy Adu, o
norte-americano em tempos considerado o próximo Pelé. É verdade, temos de nos
penitenciar: precipitámo-nos com a perspectiva de Adu arranjar mais de meio ano
depois de ter abandonado o Tampa Bay Rowdies e a realidade castigou-nos. Era
demasiado bom para ser verdade. O Sandecja Nowy Sacz da Polónia anunciou o fim
do período de testes ao norte-americano, sem que fosse assinado um contrato.
“No passado teria assinado mesmo sem qualquer hipótese de jogar. Não quero
voltar a cometer esse erro. Haverá quem tente fazer disto uma coisa má, mas eu
vejo-a como uma boa decisão porque não quero meter-me nesta confusão. A
definição de insanidade é repetir a mesma coisa e esperar resultados
diferentes. A dado ponto tens de aprender com os erros”, escreveu um
assinalavelmente maduro Adu na rede social Twitter, para depois acrescentar:
“Já chega. Guerra dos Tronos! Será a melhor série de sempre?” Quem sabe não
estará aí uma alternativa de carreira para Freddy Adu – crítico de televisão.
Quando assinou contrato com o DC Unites dos
EUA em 2014 com apenas 14 anos era considerado o futuro do futebol dos Estados
Unidos. Mas depois de sair do DC United em 2006 tornou-se num “journeyman”
jogando em 13 clubes de 8 países diferentes. Adu passou pelos estádios de EUA,
Portugal, França, Grécia, Turquia, Brasil, Sérvia e Finlândia, mas em nenhum
deles vingou e agora com 28 anos encontra-se desempregado esperando por uma
nova oportunidade.
08/08/2017
Ruud Krol
“Já
tenho nome para a tua boneca, vai chamar-se Argentina”. A carta que Ruud Krol
nunca escreveu à filha de três anos enquanto participava no Mundial de futebol
de 1978.
Não são poucas as vezes que o desporto é
instrumento para um regime autocrático se legitimar internamente e perante o
mundo. Era o que Jorge Videla pretendia com o Mundial de futebol que se iria
realizar na Argentina em 1978. A organização tinha sido atribuída em 1966, mais
de uma década antes do golpe de estado que iria colocar uma junta militar no
governo do país e o General Videla como seu líder. A melhor propaganda para o
regime acabaria por ser o triunfo da Argentina sobre a Holanda na final que lhe
valeria o seu primeiro título mundial, mas, entre tanques e soldados na rua e
perseguição constante aos inimigos do regime, um episódio ficou famoso, a carta
que Ruud Krol, capitão da selecção holandesa, nunca escreveu à sua filha
Mabelle, mas que foi apresentada nas páginas de uma revista semanal sobre
futebol como verdadeira.
A ditadura de Videla não era um segredo para
ninguém. Sentia-se lá dentro, discutia-se para lá das fronteiras do país. Era
repressiva, como todas, tanques e soldados nas ruas, centros de tortura
clandestinos, um deles a menos de um quilómetro do Estádio Monumental de Buenos
Aires, casa do River Plate, onde os argentinos seriam campeões, com um triunfo
por 3-1 no prolongamento – há relatos de prisioneiros que ouviram os festejos
do título nas suas celas. Ainda assim, não houve boicote de nenhuma selecção -
Johan Cruyff não foi à Argentina com a “Laranja Mecânica”, mas, explicaria mais
tarde, que não teve nada a ver com política. O alemão Paul Breitner seria o
único jogador a recusar-se a jogar no torneio por “razões morais”.
A Holanda não tinha Cruyff, mas era uma
legítima candidata ao título, quatro anos depois de ter perdido na final com a
República Federal da Alemanha. E, por isso, mereceu amplo destaque na edição de
13 de Junho do El Gráfico, uma revista argentina sobre futebol. “A Holanda
abriu-nos as suas portas”, era o título de uma extensa reportagem de seis
páginas no caderno central da revista em que se mostrava o quotidiano dos
holandeses no Gran Hotel Potrerillos, em Mendonza. Atenção especial era
dedicada a Krol, o experiente capitão do Ajax e da selecção. Até aqui, nada de
anormal.
Depois, lá para o final da revista, que, à
altura tinha uma tiragem semanal superior a 300 mil exemplares, aparecem duas
páginas em que é reproduzida uma carta com a data de 11 de Junho de 1978
escrita à mão e em inglês, assinada por Krol e dirigida à sua filha de três
anos, com a respectiva tradução em castelhano ao lado, e uma fotografia do
holandês com uma caneta na mão. As primeiras linhas da carta fazem sentido para
um homem que está longe da família. “Minha querida. A tua mãe vai ler-te esta
carta. Quero dizer-te que tenho saudades tuas, mas a minha memória e a
fotografia do teu sorriso estão sempre comigo”, diz este pai à sua filha,
acrescentando que já lhe comprou uma prenda, uma boneca, loira como ela e com
os olhos como os dela.
Depois, entra por um elogio super-sentimental
à Argentina para aplacar os receios da pequena quanto à segurança do papá. “A
mamã contou-me que no outro dia choraste muito porque os teus coleguinhas te
disseram que coisas muito feias se passam na Argentina. Mas não é assim. Foi
uma mentirita deles. […] Aqui é tudo tranquilidade e beleza. Isto não é o
Campeonato do Mundo. É o Campeonato da Paz. […] Não tenhas medo, o papá está
bem e tem a tua boneca e um batalhão de soldaditos para o proteger, com
espingardas que disparam flores. Diz aos teus amigos a verdade, a Argentina é a
terra do amor”, prossegue a carta, que termina com este post scriptum: “Já
tenho um nome para a tua boneca, vai chamar-se Argentina.”
Krol desmentiu a carta logo a seguir à sua
publicação, renegando as considerações melosas que descreviam um paraíso,
palavras óbvias de propaganda a um país que era tudo menos pacífico. Mais
tarde, Krol, numa entrevista ao El País, referiu-se nestes termos à Argentina
em 1978 e não falava de espingardas que disparavam flores: “Era um clima
político terrível. Não se podia sair à rua e ir às compras. Se tivéssemos ganho
a final, estava previsto evitar receber a Taça das mãos de Videla.”
A carta teve eco ao nível do governo holandês
e do embaixador na Argentina e, depois do desmentido do jogador, Enrique
Romero, correspondente do “El Gráfico” em Mendonza, assumiu a autoria da
missiva, mas levou a mentira até ao fim. “A carta fui eu que escrevi, mas li-a
a Krol e ele concordou com ela”, disse mais tarde o jornalista, já falecido,
sem nunca ter apresentado qualquer justificação para a ter escrito ou,
simplesmente, por que é que uma carta dirigida a uma menina holandesa de três anos
estava escrita em inglês.
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